segunda-feira, 1 de junho de 2009

Para minha Mãe

Primeiro de Junho…Dia Internacional da Criança
Em 2003 eu estava em Portugal, indo conhecer Braga. Fiquei encantada com diversas manifestações feitas para crianças e por crianças.
Minha mãe estava no Brasil. Na UTI do Hospital Adventista do Sétimo Dia, após uma operação para colocar safenas. Ela tinha sido operado no dia de Santa Rita e me garantiu que eu poderia fazer minha viagem, que era um trabalho que eu precisava muito, estava tão pobre naquela época, tão pobre, tão sem perspectivas… que ela não iria morrer. “Vai e volta, que eu vou ficar aqui lhe esperando. Conhece Portugal por mim.”
E assim eu fiz. Olhava para tudo como se eu quisesse guardar todas as imagens, cores, emoções de tal maneira que quando voltasse explicar para ela o que eu tinha me apercebido. E o dia da criança era um acontecimento que eu não poderia deixar de relatar.
Ela realmente me esperou voltar. Minha mãe era muito poderosa. “Pode ir, eu não vou morrer!” Naqueles dias, não morreu mesmo de uma vez. Mas morreu um pouquinho de cada vez, todos os dias, em que esteve naquela UTI, até 11 de Julho.
Neste período a gente continuou brigando. Acho que era nossa forma de se relacionar. Eu queria que ela comesse, que se alimentasse para sair logo daquele hospital e para isto usava a experiência de Portugal como se ela pudesse ver, através dos meus olhos, do meu coração, todo aquele mundo que queria tanto conhecer nesta vida. Não teve jeito mesmo. Cada dia, mais insuportável. Cada dia, mais briguenta. Cada dia, sofria mais. Cada dia, me renegava porque assim, eu acho, ela achava que eu não sentiria falta dela. Acharia até bom ela ir embora.
E foi assim. Quando ela morreu, naquela sexta feira a tarde, em um por do sol lindo, eu me senti aliviada. Só que doeu muito. Doe até agora. Doe demais. Sinto tanta falta dela. Sinto falta das brigas, das palavras de censura, sinto falta do amor. Dos conselhos tão sábios. Da sua determinação. Da sua alegria. De cantar alto, bem cedo. Sinto, principalmente falta da sua certeza, que tudo acabaria bem. Que eu era linda, que eu podia tudo, que eu venceria sempre.
Ah, Mamãe. Que falta você me faz. Ainda bem que a gente se perdoou tanto naqueles dias de hospital. Não tenho nenhum remorso, nenhuma pena, por não ter feito, isto ou aquilo. A gente fez sempre o que queria, você e eu. Você me ensinou a ser verdadeira, a ser inteira, a ser intensa. Porra, mãe. É foda ser assim. Tão tudo sempre. Porque quando a gente sofre, a gente usa a mesma vitalidade.
Agora percebi porque eu gosto tanto do por do sol… é como você estivesse sempre por perto. Aqui em África, à tarde, eu me sinto sempre protegida quando vejo o sol se por. Me sinto tão vermelha. É, Dona Lourdes. Você conseguiu tudo o que queria nesta vida. Entre outras coisas, fez de sua filha, um mulherão.
Agora, eu tenho certeza que você já foi a Portugal. Já sentiu aqueles cheiros, já se misturou com aquelas cores.
Dia da Criança... Sua neta, que dorme agora, neste feriado de dia das crianças, também já está uma moça. E eu agora que sou a bruxa má. Sem problemas. Ela me ama. Pode não me entender sempre, só que sabe que pode contar comigo. Que eu aguento o tranco. Entre lágrimas e beijos.
Assim como eu sempre contei com você. Assim como eu lhe amei, lhe odiei e voltava sempre a amar.
Dias das Crianças... ainda tenho a minha fazendo bagunça dentro de mim. Bota a cara para fora, faz travessuras. Com certeza é isto que me faz ser esta mulher tão interessante.
Mãe, esteja bem. A gente também está legal. Um dia mais, outro dia menos. É assim que a vida é. E a morte também não deve ser diferente.
Beijos fluidos em sua alma. Obrigada por ter me incentivado sempre a escrever. O que seria de mim, sem as palavras, minha sábia e saudosa mãe?
Hoje, vou prestar uma homenagem mais atenta ao Por do Sol. Depois lhe conto.
Fui!